O motoboy de São Paulo é mesmo um ‘monstro’?

Não sei se é justamente porque eu me interesso pelo assunto, mas quase todos os dias encontro alguma notícia sobre Motoboys relacionada a trânsito, acidente, confusão, polêmica, entre outras expressões normalmente, senão sempre, de valor negativo.
Essa, “Veto a motos na 23 de Maio é adiado para julho”, notícia publicada no Estadão, é particularmente interessante. A notícia tenta polemizar a questão: proíbe-se ou não motos na Avenida 23 de Maio?
E, além disso, com muita habilidade, consegue relacionar Motoboys a diversas palavras-chave. Cita: “polêmica”, “acidentes”, “manifestações”, “prejuízos”, “proibições”, “machuquem”, “brigam”, etc. Reparem como essas palavras têm uma conotação negativa na nossa sociedade. Só faltou dizer “conflito social”.
Mas, de forma ainda mais habilidosa, os comentaristas conseguiram relacionar Motoboy a tudo o que sentiram vontade: “loucos”, “suicidas”, “barbaridades”, “bandido formador de quadrilha”, “raça maldita”, “cavalos”…isso sem contar as frases que exprimem o ódio dos mais mortais, como essa: “Se o motoqueiro quiser morrer, já vai tarde”.
Ao contrário de muitas publicidades que procuram convencer o espectador de que ele precisa de determinado produto, o Motoboy não fez surgir o delivery para ter serviço. O Motoboy é o resultado da demanda que nós estamos criando a todo momento.
O mais impressionante é que todos, com certeza, todos os leitores que proferiram essas palavras tão maravilhosas sobre o Motoboy já pediram pizza delivey num dia chuvoso, sem contar tantos outros serviços que muitas vezes nem nos damos conta, mas que são realizados pelos motoboys.
Outra coisa que as pessoas parecem desconhecer (e talvez realmente desconheçam) é que o Motoboy não anda no meio dos carros porque quer, porque é um “fora da lei”. Essa prática foi legalizada durante o governo FHC através do veto no Artigo 56 da lei Nº 9503, de 23 de setembro de 1997 que dizia “É proibida ao condutor de motocicletas, motonetas e ciclomotores a passagem entre veículos de filas adjacentes ou entre a calçada e veículos de fila adjacente a ela”. As razões do veto são claras. Proibindo a passagem das motocicletas entre veículos, estaríamos restringindo muito a utilização deste veículo que garante maior agilidade de deslocamento.
Afinal, não cabe aqui nos questionarmos se devemos ou não continuar pedindo pizza delivery sexta-feira à noite. A questão é: cabe a nós julgarmos o Motoboy com tantos predicados negativos se somos nós mesmos (cidadãos que criaram essa demanda e governo que vetou o artigo 56) os responsáveis por eles estarem nas ruas todos os dias e noites arriscando suas vidas?

Por Julia Lucca - Blog: Olho Vermelho – Argumentação com paixão

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