Heróis ou vilões?

Quem mora ou quem chega a São Paulo passa pelas grandes avenidas, a começar por aquela que liga o aeroporto à cidade. Primeiro choque: os congestionamentos quilométricos. Segundo choque: a velocidade das motocicletas, que zunem entre os carros em faixa estreita, emitindo sons agudos de suas buzinas estridentes.

Elas circulam sem parar, tomam conta do trânsito, põem em risco a vida de seus condutores, de motoristas e até de pedestres, mas são a resposta possível a uma cidade que tem que se mover. Não é por outra razão que a venda de motocicletas explodiu no mercado interno.

As motos continuam a assustar pelo número de acidentes. O risco é grande. Os acidentes aumentam na mesma proporção das vendas. Em São Paulo, é uma morte por dia. As motocicletas fazem sucesso nas grandes cidades, porque são 35% mais rápidas que os carros.

Buzinas, nervosismo, filas intermináveis de carros – o dia começa e termina assim em São Paulo, a cidade que não pode parar. Mas o comerciante Paulo Pessoa, enfim, está livre desses congestionamentos. Em vez de uma hora para chegar no trabalho, ele leva 30 minutos. O gasto com a gasolina caiu pela metade. Agora, é muito menos estresse.

“Hoje a sensação é de liberdade. Eu sei que eu vou chegar em casa em 20 minutos. Não tenho problema. Posso marcar qualquer compromisso”, diz o comerciante Paulo Pessoa.

Edcarlos veio com a mãe comprar uma moto nova. Mais que um meio de transporte, a moto é o instrumento de trabalho do filho. “Tenho medo de ele se machucar. É muito perigoso. Vou financiar, pagando à prestação”, disse a mãe.

Em uma loja, 1,7 mil motos são vendidas por mês. Nove em cada dez compras são financiadas. “Compensa muito mais pagar uma prestação do que pegar um ônibus. Tem moto de até R$ 149 por mês”, aponta o gerente comercial César Daniel.

As vendas de motocicletas no Brasil andam em ritmo acelerado em um crescimento de dois dígitos há mais de dez anos, segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), Moacyr Alberto Paes.

“Hoje você tem diversas modalidades de compra da motocicleta. Tem vários tipos de financiamento: menos prestações, mais prestações, menos entrada, mais entrada, sem entrada. Todas essas facilidades levam a pessoa a buscar a motocicleta”, afirma o diretor-executivo da Abraciclo, Moacyr Alberto Paes.

Nos primeiros três meses, as vendas cresceram 30,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Ao todo, 304.200 motos foram vendidas em todo país. O modelo mais vendido é uma moto de baixa cilindrada, mais barata e econômica, muito usada nas empresas de motofrete. Em São Paulo, 1,7 mil companhias oferecem este tipo de serviço. Ao todo, são 150 mil motoboys, a maior frota do país.

Eles driblam os carros e passam acelerados pelo trânsito. A maior parte ganha por entrega, como é o caso de Ary. Ele trabalha sem registro na carteira, e o sustento depende da agilidade para atender os chamados. “Se você não anda, você não ganha. Se você não se desenrola no trânsito, não consegue ganhar dinheiro", comenta.

Essa pressa pra fazer o máximo no mínimo de tempo possível, muitas vezes, não acaba bem. A cada dia, um motoqueiro morre no trânsito só em São Paulo e 25 ficam feridos. Uma equipe de reportagem da TV Globo acompanhou o resgate de um deles na Marginal Pinheiros.

“Estávamos vindo quando travou a roda do pneu da frente da moto, e ele veio a cair. Do jeito que caiu ficou”, contou o motoboy Valdir de Souza.

Para diminuir cenas como esta na cidade, a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo decidiu criar um selo de segurança. Para receber o certificado de qualidade, a empresa deve oferecer uniforme completo, plano de saúde e seguro de vida. Além disso, é exigida a revisão regular da moto. No caso de ela não pertencer à empresa de frete, deverá haver uma ajuda de custo para isso.

“O que a gente quer é que as empresas que contratam motoboys exijam esse selo, porque estarão contribuindo para o exercício menos arriscado do trânsito de São Paulo”, afirmou o presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego, Roberto Scaringella.

São Paulo teve ontem um número impressionante de acidentes envolvendo motocicletas: foram 34. Hoje, sete acidentes foram registrados.

Fonte: Globo.com

Postagens mais visitadas deste blog